<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-6674270</id><updated>2011-04-21T11:59:02.373-07:00</updated><title type='text'>curtas virtuais</title><subtitle type='html'>roteiros, argumentos e sinopses para curta-metragens</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://curtasvirtuais.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6674270/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://curtasvirtuais.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>losorÃ¡culos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00995448600204111857</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>2</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6674270.post-108319168028479670</id><published>2004-04-28T15:34:00.000-07:00</published><updated>2004-07-27T15:22:30.186-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>SETE SÓSIAS &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Será que a Marisol tem fã clube em Ulan Bator?) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jary Mércio &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me interessa saber onde o senhor estava no dia 26 de março das sete às dez da noite. Não que não leve álibis em consideração, pelo contrário: se o cidadão tem um, já é passivo de suspeita. O inocente nem sempre lembra o que fazia tal dia e tal hora em tal ou qual lugar. Não que só isso faça dele um inocente, mas digo ao senhor: a maioria não sabe. Eu não sei o que comi ontem no almoço. Agora me lembro, foi um cachorro-quente acompanhado de uma Coca-Cola. Não, não é hot-dog, é cachorro quente, mesmo. Vinagrete, milho, ervilha, purê de batata, maionese e batata palha. Claro, salsicha. O meu, com duas, por favor. Como pouco no almoço. Ás vezes nem como nada. Quer dizer, então nem almoço todo dia, não é? Mas tomo um bom café da manhã e janto bem. Mas janto cedo e só durmo após a digestão feita. Por isso, durmo tarde e depois de uma refeição leve. Torrada ou bolacha. Um copo de leite ou chá. Mas não me lembro se ontem tomei um cafezinho depois do cachorro quente. Acho que sim, porque sempre tomo um cafezinho depois do almoço. Almoço entre aspas, como já falei. Mas acho que não tomei café nenhum, porque não me lembro agora do gostinho do café naquele momento, enquanto ainda sinto a crocância da batata palha. Vê como não é fácil lembrar as coisas? Fácil mesmo é ficar das sete às oito da noite parado no trânsito em dia de chuva e das oito às dez numa padaria. Tremoço e cerveja. Schinchariol. Nova Schin, o senhor disse. Não me venha depois dizer que é Brahma. Já vi esse filme antes e posso garantir que termina mal. No seu caso, pode ser pior. Desculpe, não vamos adiantar as coisas. Mas que não suporto fita repetida, isso não suporto. Desde as matinês no Cine Central, em Catanduva. Conhece Catanduva? Perto de Rio Preto. São José do Rio Preto, interior de São Paulo. Ah, também não conhece. Não sei se perde muita coisa. Tanta cidade no mundo. Catanduva, tenho saudades. Tenra infância. Das lembranças mais remotas, a gente só guarda as coisas boas na memória. O que é ruim, a gente apaga. A menos que a pessoa tenha passado por um grande trauma. Mas o senhor nunca passou por nenhum trauma na infância, não, não é? Desculpe a indiscrição. Não tem nada a ver com o nosso assunto. Bom, pode ter. Ia dizendo, detesto fita repetida. O bom de cada caso é que cada caso é um caso. O gostoso dessa profissão é a novidade. Mas não se anime: quanto antes resolvermos isso, melhor para nós dois. Já passou o tempo em que a profissão, para mim, era o mais importante de tudo nesta vida. Cada caso, um desafio. Hoje, não. Hoje, nada é mais importante do que a família. Respeito Esmeralda. Minha esposa. Mantenho este retrato na mesa, não é para me lembrar de que sou casado, que tenho hora para chegar em casa, não. Este retrato é para eu não me esquecer nunca de que sou o homem mais feliz do mundo. Pensa que é foto antiga? Parece, não é? Que nada, tem uns cinco anos só. Conservadíssima, a Esmeralda. Sou fiel, coisa difícil hoje em dia. Parece mentira, não é? Esmeralda não acha. Ela me conhece. Sabe o quanto demorou, quanto foi difícil, mas sabe que hoje sou um homem de família. Um homem que vive unicamente para a família. Para a profissão também, mas se trabalho direito, se me concentro no que faço, é porque encontro respaldo no meu lar. Hoje, sou um sujeito centrado. Longe vão os tempos de esbórnia. Não tenho saudades. Já nem me lembro. Tenho coisas mais importantes para pensar, para cuidar. Os meus dois netos, as duas coisinhas mais ricas que existem. Estes aqui. Não são lindos? Como o senhor vê, minha mesa é a extensão da minha casa. Nas paredes, o presidente Luís Inácio Lula da Silva, o governador Geraldo Alckmin. O Cristo é uma psicografia, sabia? É uma estampa, mas o original foi psicografado. Mas na minha mesa, a mulher e os netinhos. A Fernanda e o Pedro Henrique, filhos da Maria Clara. Adoro a Fernanda, mas até o papagaio sabe que o meu xodó é o Pedro Henrique. Cinco aninhos de pura esperteza. Fala tudo e apronta todas. Mas gosto da Fernanda igual, claro, é minha neta. Filha da Clarinha. Um docinho. Tem nove anos e já fala inglês. Sabe fazer desenho animado no computador. Flash. É, me contou que usa um programa chamado Flash. Não é uma animação tipo Disney, vinte e quatro quadros por segundo, mas funciona. Fica bonitinho. Flash. A Fernanda gosta de me contar essas coisas, mesmo sabendo que eu não entendo nada de computador. Acho que é por isso mesmo que ela conta, não é? Para mostrar que sabe coisas que o vovô não sabe. Desenho animado por computador. Flash. Onde é que essas crianças de hoje vão parar? Ia dizendo, adoro a Fernandinha, mas até o papagaio sabe: Pedro Henrique, Pedro Henrique, olha só quem chegou! Vovô! Vovô! Danadinho. O Hilarinho é um danado. Também faz parte da família, como o Bill, mas este falta falar. Nem late muito. Melhor assim. É isso, a família em primeiro lugar, mas logo depois o trabalho. Não fico procurando dureza mas detesto rotina. Tudo, menos rotina. Parado no trânsito? Muito bem. Choveu, não foi? As outras duas horas, na padaria. Nova Schin, Brahma, tanto faz. E tremoços. O senhor garante que os funcionários o reconhecerão, dirão que esteve de fato lá das oito às dez da noite. Uma mulher que comprou sequilhos pode garantir que entre as oito e meia e as oito e trinta e cinco o senhor esteve lá. Mais ou menos entre oito e meia e oito e trinta e cinco, não é? O senhor falou com ela sobre sequilhos, como eram bons antigamente. Antigamente quando? O senhor é novo. Vinte e oito, não é? Não, não, o senhor está certo. Quando se é novo, o tempo passa mais devagar. Antigamente. Pode ser há dois, três anos, um pouco mais talvez. Para quem é jovem como o senhor, anteontem já é antigamente. Modo de dizer. Ela estava comprando sequilhos, o senhor no balcão, bebendo cerveja. Quem puxou assunto? Ah, o senhor. Senão, como ela saberia que o senhor estava ali, não é mesmo? Detesto sequilhos. Vira uma pasta na boca, só desce com água. Mas adoro mantecal, o senhor gosta? Faz tempo que não vejo numa padaria. Pão de torresmo é outra coisa boa que desapareceu. Agora, me diga: onde, que padaria não tem o tal do croisant? A maioria, rançoso. Frio. O senhor leva para casa e, se esquenta no forno comum, a gás ou elétrico, fica seco. No microondas, já não é mais croisant. Fica mole. Não é mais croisant. Não acho que esteja saindo do assunto. Ainda estamos na padaria. Das oito às dez da noite. Mais ou menos, não é? Mais ou menos, sempre, não vamos confiar tanto assim nos relógios. O seu é de bateria? É. O meu também. Então. E made in Paraguai. Mas é tudo a mesma coisa, dão a hora certa igual. Os minutos, mais ou menos. Não é? Quem vai saber. O meu é Dumond. Com d mudo. Deve ser uma homenagem ao Santos Dumond com d mudo, o inventor do havião com agá. O seu? Cartier? Ah, Carttier. Dois tês. Então. E veja, o senhor ganha muito mais do que eu. Não, não quero saber como o senhor gasta o seu dinheiro. No momento, basta saber que não é com relógio caro. Faz muito bem. Já falamos sobre isso. Sim, a padaria. Duas horas, todo mundo viu. A mulher dos sequilhos. O negócio gruda até na garganta. Desculpa, vou beber um copo d´água. O senhor aceita? Tome um cafezinho. É bom. O café daqui é bom. Garanto, porque trago de casa. Aqui, até papel higiênico a gente traz de casa. Eu diria que principalmente papel higiênico. A falta de verbas de sempre. Garanto que deve estar sobrando no bolso de alguém. Não ligo. Não me preocupo com isso. Não é esse o meu trabalho. E no que posso ajudar, ajudo. Todo mundo aqui dá a sua cota de colaboração, senão a gente não teria as mínimas condições de trabalho. Claro que pode fumar. Cinzeiro. Não, obrigado, não fumo. Não, não me importo. Mas como eu disse, gosto do que faço. Por mim, não me aposento. A padaria. Sim. Não sei porque continuo nesse assunto. Já disse que álibis desse tipo não me interessam e ainda estamos aqui, nessa bendita padaria. Desculpe. Acho que estou precisando conversar, falar um pouco, sabe? O senhor pode não acreditar, mas não sou de falar muito. Não sei o que é que me deu hoje. Quem deveria estar falando é o senhor, mas veja como são as coisas. Agora, deixa eu entrar em um assunto com o senhor. Assunto sério. O senhor já ouviu falar que cada pessoa tem exatamente sete sósias? Cada um, sete sósias no mundo. Que podem estar espalhados pelo planeta, mas a chance de nós dois termos um desses sete sósias no Japão, na China ou na Tanzânia é quase zero. Estatisticamente, zero. Mas tem os diplomatas, os funcionários de embaixadas e consulados e outros mais. Pode ser que o senhor tenha um sósia na Tanzânia. Ué, pode ser, não pode? Um adido. Bela, palavra, adido. Digamos que o senhor tenha um sósia na Tanzânia. O que será que ele estaria fazendo no dia 26 de março de 2004, das sete às dez da noite, hem? Lá na Tanzânia. Nem consigo imaginar. A Tanzânia está em guerra civil? Chove muito lá? E o trânsito? Também deve ser um inferno como São Paulo, mas de outro tipo. Aquele mundo de gente disputando lugar na rua com caminhões também lotados de gente, carros velhos, carroças, carrinhos de mão. Mas de repente estou falando bobagem. Vai que a Tanzânia é desses países arrumadinhos, tudo mais ou menos no lugar, sei lá, pelo menos a capital. Qual é a capital da Tanzânia, mesmo? Já fui bom nisso no tempo do colégio. Stop. O senhor já brincou de stop, claro. O nome de uma fruta com efe? O mais difícil e o mais fácil. Fruta-pão. Capital, sabia todas. Mongólia, capital Ulan Bator. Esta não esqueço. Ulan Bator, como esquecer. Teremos sósias em Ulan Bator? Vai saber. Capital da Tanzânia. Qualquer hora o nome vem. Como disse, já fui bom nisso. Não confundia Reikjavik com Helsinque, como hoje. Uma é a capital da Finlândia, a outra, da Islândia. Qual é uma e qual é a outra é coisa que nunca sei. Também, já não estou mais na idade, não é mesmo? Digo, ficar guardando na memória coisas que não interessam. A memória é seletiva, por isso é que funciona. Mas, por falar em Tanzânia. Poderia ser Zâmbia. Capital: Maláwi. Ahá. Ruanda. Botswana. E os nossos irmãos de Moçambique e Angola? Pobre África. Sabe que poderia estar melhor? Sabe que não precisaria viver nesse sofrimento? Guerra e fome. O mundo finge que não está acontecendo nada. Sabe como começou? A vaca louca. É isso aí, vaca louca. O nome pode ser outro, com certeza foi outro. Os sintomas também, não sei quais foram. Mas o final é o mesmo. Morte rápida. Carne inaproveitável. No século passado, ninguém passava fome na África. O senhor sabe por quê? O maior rebanho de gado bovino do mundo. Sim senhor. É o que estou dizendo. O maior rebanho de gado bovino do mundo. Aí, os europeus, que já mandavam por lá, resolveram aproveitar ainda mais as pastagens e introduziram seu gado ali. Vacas e bois doentes. A ganância do ser humano dito civilizado parece não ter cura. Todo o gado dos africanos foi dizimado. No lugar dos pastos, renasceram as savanas ancestrais. No lugar do gado, leões, zebras, elefantes. E a África virou essa estação de safári e fome. E aí, essa história dos sósias, o que é que o senhor acha? Bacana, não é? Somos oito no mundo. Eu e mais sete. O senhor e mais sete. Sete sósias. Oito, na verdade. Mas cada um tem sete sósias. A cara de um, o focinho de outro. Modo de dizer. O meu filho Arturzinho foi quem me mandou um e-mail sobre esse assunto. O Artur é engenheiro agrônomo mas está desempregado. Quer dizer, não conseguiu arrumar um emprego em sua profissão desde que se formou. Faculdade boa, um dos primeiros da turma. E daí? Sem emprego há cinco anos. E aí o jornal da tevê diz que engenheiro agrônomo sai da faculdade com emprego garantido. O setor agrícola em alta busca profissionais capacitados. O Arturzinho já mandou currículo para tudo quanto é empresa do setor agrícola em alta e nada. Agribusines, não é isso? Onde é que eles arrumam essas palavras? Fazendas do Mato Grosso, Rondônia, Tocantins, Embrapa, Ibama, i-não-sei-o-quê-lá-mais, o caralho a quatro! Desculpa, desculpa, desculpa, por favor, desculpa. Não sei o que foi que me deu, não falo palavrão nem sozinho. De jeito nenhum. Muito menos no trabalho. Este lugar aqui é sagrado. Estas paredes são um relicário. Como o meu lar. Relicário. Palavrão, não gosto nem de ouvir, que dirá falar. Nem em campo de futebol. Quando eu ia a campos de futebol. Na verdade, o Morumbi. Mas nos tempos de Poy, Bellini, de Sordi. Bons tempos. São-paulino de carteirinha. Hoje, não vejo jogo nem pela televisão. Aliás, tevê, só para ver o Boris Casoy e o Jornal Nacional. E sabe por quê? Palavrões. Esse Fausto Silva. Foi quem introduziu o palavrão na televisão. A Dercy Gonçalves sempre falou, mas era só ela, a gente sabia que vinha, tirava as crianças da sala, mudava de canal ou desligava a tevê. Um e outro também deixava escapar, de vez em quando. Mas a tevê só faltava sair do ar. Na sala, ninguém olhava para ninguém. Mas esse Fausto Silva, foi ele quem banalizou. Fosse de madrugada, vá lá. Mas, domingo à tarde. Hoje, televisão é palavrão. Mas me desculpa. A situação do Arturzinho, acho que foi isso. Acho que eu estava pensando na dificuldade por que ele passa, é uma humilhação, não é mesmo?, e fiquei com vontade de xingar. Mas não sou disso, garanto. Passou por uma depressão forte, o Arturzinho, melhorou com remédio. Graças a Deus. Fluoxetina. Por isso que, nem que quisesse, o relógio tinha que ser paraguaio. Santos Dumond com d mudo. Não me pergunte quem foi esse senhor nem o que é que ele inventou. Vai ver, foi o relógio falsificado. Não ganho mal, mas as despesas são cada vez maiores. Nem por isso aceito participar de alguma jogada esquisita, o senhor sabe do que estou falando. Parafraseando a música, a honestidade é a herança maior que meu pai me deixou. Além do mais, sou espírita. Católico de batismo, como todo mundo, mas kardecista. Sei que o que aqui se faz, aqui mesmo se paga. Nesta ou em outra encarnação. O senhor tem religião? Católico. Mas vai à missa? Devia. A única coisa que temos de verdade é o espírito, que não morre nunca. Um dia todos estaremos no mesmo plano da evolução espiritual, ao lado do Supremo Arquiteto do Universo, mas por enquanto é cada um por si. O espírito. Devemos cuidar dele. O Arturzinho não queria de jeito nenhum mas agora começou a ir ao centro comigo. Tomar passe. Daqui a pouco nem precisa de remédio. Então, ia dizendo, sem muito o que fazer, meu filho Artur passa o tempo na internet. Coisa que não entendo, até outro dia ninguém ouvia falar, hoje é internet para tudo. Em tudo quanto é lugar. A impressão que tenho é de que tudo aconteceu de um dia para o outro. Essa dos sete sósias, o Artur achou na internet. Me mandou por e-mail o endereço do site, eu entrei. Sei que a maioria do que tem na rede é lixo. Coisa inútil, muita mentira. Rede. O senhor notou? Já estou falando como um usuário. Afinal, queira ou não, sou um usuário da rede. Mas o site dos sete sósias me convenceu de que isso realmente existe. Isso de cada pessoa ter sete sósias e formar um grupo de pessoas extremamente parecidas espalhadas pelo mundo. O site mostra fotos de milhares de sósias agrupados em oito. Gozado, são oito pessoas iguais, mas só sete sósias. É que ninguém se considera sósia de ninguém, já reparou? Sósia é sempre o outro. Por isso, sete sósias. Traz centenas de depoimentos de pessoas que tiveram a oportunidade de conhecer de perto os seus sete sósias. Estes últimos viajaram mundo para encontrar seus gêmeos sem relação de parentesco. O impressionante são as fotos dos grupos reunidos. Uma diferença aqui, na cor do cabelo, outra ali, no tom da pele, mas só. Traços idênticos. Até a estatura, a compleição física. Muita foto de gente nua, mas feitas sem pose para evitar qualquer conotação obscena. Olha, vou dizer, até as partes pudendas são iguais. Sem tirar nem pôr, com o perdão pela expressão, que pode ter alguma conotação obscena, mas foi involuntário. Também não preciso ficar me desculpando por tudo. Afinal, somos adultos. Manipulação de imagem? Poderia ser, mas quem iria manipular milhares de fotografias? Milhares de pessoas, o senhor poderia responder. Está bom, mas há os endereços das pessoas, e-mails, telefone, tudo. Falei com centenas deles por e-mail. Dezenas por telefone. Liguei até de casa, de madrugada, por causa do fuso horário. Horas de ligação. Depois mando cópia da conta para a Seccional, mas sabe quando eles vão pagar? Enquanto isso, sai do bolso de quem? É o que digo, não ganho mal, mas as despesas, cada vez maiores. Horas de ligação. Inglês. Espanhol. Italiano. Falo inglês, francês, espanhol e italiano perfecto. Italiano, porque sou neto de italianos. Neto e filho de professores de italiano. Dei aula, também, quando estudava Direito. Oriundi. Da Toscana. O senhor sabe que a língua italiana nasceu na Toscana? Nasceu, não. Foi inventada. Literalmente inventada. Dante Alighieri. Já leu a Divina Comédia? Devia. Vale a pena. Pena não, me expressei mal. É até fácil de ler. Tem excelentes traduções para o português. Português do Brasil. Sabia que nunca foi traduzida em Portugal? Povo inculto? Talvez, não. Talvez o contrário, leiam direto no original. Digo, os cultos de fato. Mas as traduções brasileiras. Fiéis, viu? Fiéis a Dante, que escreveu em linguagem simples, justamente para todo mundo entender. Uma obra instrutiva para a época e que ainda tem muito valor no mundo de hoje. Nel mezzo del cammin di nostra vita mi ritrovai per una selva oscura ché la diritta via era smarrita. Devia ler. Tenho em casa uma edição bilingüe de 1940, ilustrada com belíssimas reproduções de óleos de Manet. Na verdade, são releituras das mesmas cenas de La Comédia tal como foram interpretadas por Delacroix. A diferença entre eles, Delacroix e Manet, é de uma geração. Mas as pinturas mais expressivas sobre a Comédia de Dante são de Bouguereau, feitas especialmente para uma edição francesa de 2000. Francês, detestava, mas tive que aprender. A ler e a falar, corretamente. Parla italiano, parla castellano, parla inglesi, perche no va a parlare franchesi, vagabonde sans sa Meca? Era o que a mama dizia. E dá-lhe le livre de le élève, jamè on na vu, jamè on na verá. E biquinho. Dá-lhe biquinho. Depois, na adolescência, vieram Rimbaud, Baudelaire, Hugo, Laforgue. Aí a coisa melhorou. Na verdade, foi a poesia que me ensinou a gostar da língua francesa. Mas não me venham com Mallarmé e outros do tipo. Romances, li pouco no original. Na verdade, só Camus, por causa do estilo. Seco, direto, afiado. Sagan, Sartre, Beauvoir, as crônicas de guerra de Exupèry, só conheci em português. Rousseau, Montesquieu, Montagne, claro. Proust? No, no, no. Não passei da terceira página. La pura e sacrossanta veritá é que io sono un bruto. Proust é demais para minha falta de sensibilidade. Fico apenas com as madeleines. E tem gente que gosta de sequilhos. Agora, sabe como aprendi inglês e espanhol? Criança, ainda, sabe como? Pelo rádio. BBC de Londres e Rádio Havana de Cuba. Sozinho. Saudades das ondas curtas. Os concertos da Rádio Colônia. Da Rádio Central de Moscou. Não, não aprendi russo nem alemão. Muito menos pelo rádio. Só inglês e espanhol. Só? Para uma criança, e ainda mais pelo rádio, não é pouica coisa. Não, não é. Mas reconheço, é preciso ter dom. Vem de família. Não vê a Fernandinha, nove anos e já fala inglês? Bom, é claro que aí também entra o bolso do vovô aqui. Então, falei com mais de cem pessoas que já tiveram a oportunidade de ver de perto seus sete sósias. Sei lá, uns cem. Sósias dos sósias dos sósias. Verifiquei. Não é mentira da internet. O engraçado é que não há nenhum registro de mais de sete sósias. Do jeito que falei, sete mais um. Estou falando de sósias mesmo, idênticos. Tipo clones. Tipo? Olha só, me peguei falando igual à Fernandinha. Com ela, tudo é tipo isso, tipo aquilo. Nela, acho engraçadinho. Tem nove anos. Mas marmanjo falando tipo a cada duas palavras. Não dá. As pessoas, na sua maioria, não sabem, mas vem do inglês. Esse negócio de tipo isso, tipo aquilo. Like a rolling stone. Grande Bob Dylan. Está achando engraçado um vovô gostar de Bob Dylan? Ora, ele deve ser mais velho do que eu. Deve ser vovô também. Ah, não combina com a minha profissão? Preconceito. Grande poeta. O último dos grandes baladeiros, depois de Woody Gutrie e Johnny Cash, naturalmente. Johnny Cash, vi um filme interessante com ele. Duelo de Bravos. Ou, talvez, Duelo de Titãs. Não me lembro, faz tempo. Vi na tevê. Johnny Cash, no papel principal, junto com nada mais nada menos que Burt Lancaster. Os dois duelam no fim e sabe o que acontece? Bom, para o senhor posso contar o final, o senhor depois vai entender por quê. Sabe o que acontece? Os dois morrem e os dois vivem. É isso. Como? Simples. O filme tem dois finais. Num, morre um. No outro, morre o outro. Meio besta, não é? Cinema é cinema, e sabe como são esses diretores. Cada um quer chamar mais a atenção do que o outro. Filme de arte. Bangue-bangue de arte. Neste mundo tem de tudo. Mas valeu pelo Johnny Cash. Mas por que estávamos falando do Johnny Cash? Ah, sim, o Bob Dylan. Judeu, o senhor sabe. Robert Zimmerman, na verdade. Gosto dos judeus. Não aprovo, absolutamente, o que o governo de Israel faz com os palestinos. Mas isso é outra história. Então não poderíamos nos perdoar pelo que nossos ancestrais fizeram com os negros e índios. Os judeus são um povo especial. Carregam a herança cultural da humanidade nas costas. Marx, Einstein, Freud, só para citar alguns. E o próprio Jesus Cristo, todos sabem. Não que eles sejam o povo escolhido. Mitologia. Cada povo tem a sua. Todo povo se julga escolhido. Para o bem ou para o mal. Deus, por acaso, não é brasileiro? É claro que é. No Brasil, é. Eles não mataram Cristo coisa nenhuma. Cristo veio para nos redimir com seu sacrifício. Não é o que está escrito? Temos que acreditar em alguma coisa. O lugar foi aquele, a forma foi aquela. Se fosse em Ulan Bator, não seria tão diferente. Claro que seria de acordo com os costumes do lugar. E a ignorância humana iria culpar os mongóis. Mas será que a Mongólia nos daria Marx, Einstein, Freud? Não, não vi o filme do Mel Gibson. O senhor também vai achar estranho mas não posso nem ver sangue. Nem no cinema. A última Paixão de Cristo que vi no cinema, ainda era um rapazola. Sabe quem era a Virgem Maria? A Fernanda Montenegro. Grande dama do teatro brasileiro. Agora também do cinema e da tevê, não é? Quase um Oscar e tudo. O Cidade de Deus também não vi. Por causa da violência, mas dizem que é um grande filme. Que coisa, hem? O Brasil, com esse negócio de cinema. Ninguém dava nada, agora é um filme bom atrás do outro. Indicações para o Oscar e tudo. Confesso que não vi nenhum. Falta de tempo. Diminuíram os palavrões? Bom, vamos dar um desconto para o palavrão no cinema, não é? Afinal, o cinema não entra na sua casa. Mas queria ver esses filmes todos. A retomada do cinema nacional, como dizem. A falta de tempo vai criando outras faltas. Quando posso, vou com o Pedro Henrique e a Fernandinha ao cinema do shopping. Mas é só filme infantil. Claro. Vi tudo. Rei Leão. Aladim. Castelo Rá Tim Bum. Schrek. Procurando Nemo. Que mais? Tudo. Menos Xuxa. Não gosto, mas não foi por mim que não vi. Pelas crianças, faço de tudo. A Fernandinha e o Pedro Henrique é que não acham graça. Dizem que ver a Xuxa é, como é que é, mesmo? Pagar mico. Mas gostam da Angélica. Eu também. Moça esforçada. Que eu saiba, nunca posou nua. Que eu saiba. Harry Potter também não vi. Fernandinha quis ver só com as amiguinhas. A mãe de uma delas acompanhou, obviamente, mas só até a porta do cinema. Capricho de meninas. Nove anos, a Fernandinha diz que é pré-adolescente, mas só na idade. Diz que já tem idade mental de adolescente. O Pedrinho não quis ver. Não pegou a febre. Cinco aninhos, só, afinal de contas. Teve continuação, esse Harry Potter? Então mais tarde o Pedro Henrique vê tudo de uma vez em DVD. Não é como no meu tempo, a criança perdia uma fita, babau. Cidade pequena, filme infantil passava uma vez só. Na matinê. Se fosse um grande sucesso, grande mesmo, passava uns três domingos seguidos. Depois, nunca mais. Saudades da Marisol. Um raio de sol. Tômbola. Marisol no Rio. Era realmente um raio de sol na vida das crianças que tiveram o privilégio de ver e ouvir cantar aquele anjinho. Loirinha, olhos verdes. Depois veio a Halley Mills. Hollywood não ia ficar para trás, não é? Talentosa também. Loirinha também. Olhos azuis. Que filme da Halley Mills? Deixa ver. Que me lembre agora. Ah, claro, Os sobrinhos do Capitão Grant. Mas ninguém substituiu a Marisol. Halley Mills, por exemplo, não cantava. Marisol? Um passarinho. Veja só, nem perguntei se o senhor gosta de cinema. Gosta? Ah, então vou contar uma coisa para o senhor. Viu O Amor Bruxo, não viu? Carmen? Então, a Marisol trabalhou en El Amor Brujo. Em Carmen também. Ambos do Carlos Saura. Nem eu sabia. Fui saber depois. Veja você, pela internet. O Google. Quem me deu a dica do Google foi o Arturzinho, claro. Internet é com ele. Esse Google é uma maravilha. Coloquei lá o nome Marisol e apareceram centenas de endereços de sites sobre ela. Não sabia o quanto ainda é idolatrada. Fãs clubes no mundo todo. Até no Japão. Será que a Marisol tem fã clube em Ulan Bator? Só vendo na internet. Quando adulta assumiu o nome de batismo, Pepa Flores. Por isso perdi o contato. Mas o que é que a internet não descobre para a gente, não é mesmo? Cresceu, virou militante política. Comunista. Quadro importante do Partido Comunista Espanhol. Quadro, em linguagem política, é integrante, o senhor sabe, claro. Não? Pois é. Fiquei mais fã, ainda. Não sou comunista, nunca fui. Nem socialista. Mas não nego que a idéia de um mundo onde as pessoas pelo menos tenham chances iguais me é simpática. Afinal, sou uma humanista. Marisol, aquele anjinho, comunista, quem diria? Pepa Flores. Foi casada com o Antonio Gades. Depois que se separou dele, deixou a vida artística. Antonio Gades, conhece? O bailarino. Ator. Esteve em São Paulo. Esmeralda, minha esposa, é apaixonada por ele. Não vá pensar que tenho ciúmes desse tipo de coisa. Mulher precisa disso. Foi ver a apresentação do Gades no Municipal, tudo. Com as amigas. Elas saem sempre. Juntas. Sem os maridos. Normalmente, um programa cultural. Depois vão para uma pizzaria. Cerveja, vinho. Voltam felizes para casa. Elas merecem. Esmeralda. Uma vida juntos. Mas isso é outro assunto. Estava falando dos sete sósias. O mais importante eu não contei para o senhor. Sobre os sósias. Sobre o site dos sósias. Mas vou contar agora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6674270-108319168028479670?l=curtasvirtuais.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6674270/posts/default/108319168028479670'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6674270/posts/default/108319168028479670'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://curtasvirtuais.blogspot.com/2004_04_01_archive.html#108319168028479670' title=''/><author><name>losorÃ¡culos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00995448600204111857</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6674270.post-108026095807099771</id><published>2004-03-25T16:29:00.000-08:00</published><updated>2004-03-26T12:24:41.560-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Jary Filmes apresenta (título provisório)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota: TODAS AS CENAS DE OUTROS FILMES MENCIONADOS NESTE ROTEIRO SERÃO RECONSTITUIÇÕES, MAIS OU MENOS FIÉIS AOS ORIGINAIS DE ACORDO COM OS OBJETIVOS DA OBRA E DAS POSSIBILIDADES DA PRODUÇÃO. NESTE ÚLTIMO QUESITO, HAVENDO ALGUMA POSSIBILIDADE, UTILIZAREMOS DE BOM GRADO UMA CENA ORIGINAL DE ALGUM FILME, PARA EMPRESTAR MAIOR “VERACIDADE” AOS REMAKES. OBS.: AS CENAS COM “JEAN SEBERG” USARÃO UMA DUBLÊ DE ROSTO E MANIPULAÇÃO DE IMAGEM. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Personagens: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Personagem (Homem da Voz off)&lt;br /&gt;Menino 1 &lt;br /&gt;Jean Seberg&lt;br /&gt;Ator&lt;br /&gt;Diretor&lt;br /&gt;Assistente&lt;br /&gt;Câmera&lt;br /&gt;Iluminador&lt;br /&gt;Menino 2&lt;br /&gt;Paramédico&lt;br /&gt;Outros meninos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atores dos “filmes”:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maciste &lt;br /&gt;Roberto Carlos&lt;br /&gt;Rômulo e Remo&lt;br /&gt;Mocinho&lt;br /&gt;Bandido&lt;br /&gt;Extras&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 1 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corpo caindo de um edifício. Queda é mostrada de cima e de baixo, do ponto de vista de pessoas vendo a queda das janelas do prédio, e do PV da própria pessoa que cai, vendo as pessoas nas janelas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 1/A (com takes intercalados à Cena 1)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sucessão de desenhos - feitos com caneta esferográfica em papel manteiga - é projetada numa parede, num quarto escuro. Desenhos mostram, com traços mínimos, um bonequinho caindo de um prédio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz de homem off:&lt;br /&gt;Dizem que, quando a gente morre, a vida passa diante de nossos olhos como um filme.&lt;br /&gt;Cena 2 &lt;br /&gt;Um homem com uma câmera de cinema rudimentar, sobre um tripé plantado entre os trilhos de uma estrada de ferro, filma um trem movido a vapor. O trem, vindo. O cinegrafista sendo atropelado pela locomotiva. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz de homem off: &lt;br /&gt;Mas, e antes do cinema ser inventado, como é que as pessoas viam sua vida passar diante dos olhos no instante da morte?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 3&lt;br /&gt;Uma cena de ópera em fast motion. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off: &lt;br /&gt;Como uma ópera?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 4&lt;br /&gt;Seqüência de imagens silhuetadas em movimento rápido, entremeadas por tomadas do aparelho de sombra chinesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sombras chinesas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 5 &lt;br /&gt;A cena da caveira de Hamlet, com os movimentos do ator acelerados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off: &lt;br /&gt;Um drama de Shakespeare,...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 6&lt;br /&gt;Medéia mata os filhos em ritmo vertiginoso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off:&lt;br /&gt;... uma tragédia grega?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 7&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Big close de um par de olhos apavorados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off: &lt;br /&gt;E antes, bem antes, como é que as pessoas viam o retrospecto de sua existência?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 8&lt;br /&gt;Cenas “egípcias” (figuras de perfil) sucedem-se, com as figuras movimentando-se rapidamente. A última cena é invertida (mostrada também em contraplano).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off: &lt;br /&gt;Muitos veriam tudo assim, só de ladinho... Mas, já que não podiam ver o retrospecto de sua vida em perspectiva, será que pelo menos poderiam escolher o lado a ser visto? Ah, será que isso faria alguma diferença? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 9&lt;br /&gt;Baixos relevos com escrita cuneiforme e, depois, de desenhos rupestres pré-históricos. Cena fecha com a clássica imagem da mão decalcada na pedra (obra fundadora da história da arte). Por animação, a mão se mexe, na linguagem internacional dos surdos, dizendo qualquer coisa como “a gente se vê logo mais”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off: &lt;br /&gt;Daí para trás, acho que a coisa ia ficar ainda bem mais difícil... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 10&lt;br /&gt;Cenas de um clássico conhecido do cinema, seguidas de cenas de uma produção C, tipo “Roma antiga” ou Maciste, culminando num filme do Roberto Carlos. &lt;br /&gt;Voz off:&lt;br /&gt;O fato é que, se eu pudesse fazer um último pedido, seria para ver um outro filme, que não o da minha vida. Qualquer outro. Qualquer, mesmo. Agora, se fosse pra escolher...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 11&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cenas, de vários filmes, em que Jean Seberg aparece, incluindo “Joana d’Arc”, de Otto Preminger. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off: &lt;br /&gt;Gostaria mesmo de ver uma fita com os melhores momentos da Jean Seberg. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 12&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fotos e pôsteres de filmes com Halley Mills, Sandra Dee, Marisol, Candice Bergen, Cláudia Cardinale, Virna Lisi, Leila Diniz, Adriana Prieto, Juliete Binoche etc, na parede de um quarto. Na cama, um adolescente se mexe em baixo de um lençol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off: &lt;br /&gt;Primeiro, porque, mesmo que, depois, eu tenha me apaixonado intensamente por outras mulheres...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 13 (11.1)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Big close com Jean Seberg. Rola uma lágrima em sua face (cena de “Joana D’Arc”).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off: &lt;br /&gt;... na verdade, amar, mesmo,... em toda a minha vida... eu só amei Jean Seberg. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 14&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Menino 1 olha através de uma fita de papel manteiga, onde estão desenhos feitos a caneta esferográfica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off: &lt;br /&gt;E depois, eu sempre vivi minha vida como se fosse um filme...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 14&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Funde para close do mesmo menino, entre cinco e seis anos, chorando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diretor (off): &lt;br /&gt;Corta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abre para plano geral, mostrando set de filmagem: em um estúdio, diante de uma câmera e sob as luzes, menino está no colo de um adulto. Diretor fala a assistente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diretor:&lt;br /&gt;Muito bom, esta valeu! Valeu, pode desmanchar o set. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adulto tira o menino do colo e passa a mão na sua cabeça, ao mesmo tempo em que fala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Homem: &lt;br /&gt;Grande garoto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Close do menino chorando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off: E não tenho a menor vontade de ver esse filme de novo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 16 (7.1)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Big close dos olhos, agora aparentemente sem vida. Zoom out lenta mostra mão de alguém cerrando os olhos do morto. Corte para o corpo estendido na calçada. Ao lado, um caminhão dos Bombeiros e soldados da companhia. Chega uma ambulância. Paramédicos carregam o corpo para dentro do veículo, que sai, em disparada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off:&lt;br /&gt;Mas, elo jeito, parece que não será ainda desta vez...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 17 (7.2)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corpo cai numa cama elástica, segurada por bombeiros. Olhos do homem ficam estatelados, de susto. Mão fecha os olhos. Bombeiros colocam o corpo em uma maca e o levam para a calçada. Chega a ambulância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off: &lt;br /&gt;Afinal, até agora, que eu saiba, tirando uma cena ou outra, ainda não começou a passar filme nenhum...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 18&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Personagem (homem da voz off) fala com o paramédico. Este, na verdade não presta a menor atenção. Pelo contrário, parece cochilar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Personagem:&lt;br /&gt;Aposto que você deve estar doido pra saber porque eu gosto tanto da Jean Seberg. É ou não é? Vamos, pode falar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 19 (1/A.1)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bonequinho projetado na parede começa a subir, ao invés de cair. Agora vemos menino manipulando projetor artesanal, feito de madeira e com uma lâmpada com água no lugar da lente. Ele roda uma manivela de arame, que faz a fita, de papel manteiga, voltar no carretel. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off:&lt;br /&gt;Bom, para isso vamos precisar voltar um pouco no tempo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 20&lt;br /&gt;Em seu quarto, menino desenha com caneta esferográfica sobre uma fita de papel manteiga. Enrola a fita em um carretel, que coloca num projetor de madeira. Liga o projetor a uma tomada. Desliga a luz do quarto e liga a lâmpada o projetor. Gira a manivela e projeta letreiro na parede: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jary Filmes apresenta...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off:&lt;br /&gt;“Um pouco” é modo de dizer. Na verdade, é preciso voltar toda uma vida...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Menino gira novamente a fita. Na parede, aparece desenho com sete mulheres nuas e um homem no meio. Gira novamente a manivela. Aparece letreiro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sete Evas e Um Adão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off: &lt;br /&gt;... para explicar a origem de minha paixão de toda uma vida por Jean Seberg.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Letreiro na parede desfoca e, no lugar, aparece outro, com tipologia moderna: &lt;br /&gt;Nós que amávamos tanto Jean Seberg&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 21&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Funcionário troca cartaz na frente de cinema: tira o cartaz de um filme do Maciste (com Gordon Scott, no papel principal) pelo de “Joana d’Arc”, de Otto Preminger, com Jean Seberg.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Letreiro: Catanduva, SP, anos 60 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off de Menino 1:&lt;br /&gt;Pô, cara, tão tirando o Maciste de cartaz!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off de outro Menino 2:&lt;br /&gt;E eu só vi o filme três vezes!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off do Menino 1: &lt;br /&gt;‘Só’ três? E eu que não vi nenhuma!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off do Menino 2:&lt;br /&gt;Azar o seu! Agora tira o atraso e vê essa Joana d’Arc logo umas dez vezes!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Funcionário do cinema vê os dois meninos, de uniforme de escola e bolsas, se afastando, andando pela calçada. Agora eles são vistos de frente, falando enquanto andam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Menino 1: &lt;br /&gt;Dez vezes! Até parece que cinema é de graça! E essa Joana d’Arc deve ser o maior abacaxi! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 22&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ladeada por dois soldados, Joana D’Arc, interpretada por “Jean Seberg” (dublê), sobe as escadas que a levam a um patíbulo ao fundo do qual está uma pira. Ao chegar ao último degrau, Joana olha para trás. Close em seu rosto, onde rola uma lágrima (manipulação de imagem a partir de foto, filme etc, com a Jean Seberg original). Joana vence o último degrau, caminha pelo patíbulo até a pira, à qual é amarrada. O patíbulo, que está sobre rodas, é então retirado e Joana é queimada. Cena se repete cinco vezes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off:&lt;br /&gt;Foi a última vez que chamei um filme de abacaxi sem ver antes. Joana acabou sendo o melhor filme que eu e a turma toda jamais havíamos visto. Muito, muito melhor do que Maciste, As Escravas de Tróia, Os 400 de Esparta e os filmes todos do Joselito, da Marisol e da Halley Milss. E que linda que era a Jean Seberg! Claro, não deu pra ver o filme dez vezes, porque as minhas latas todas de peão batatinha, minhas coleções de Aí Mocinho, Diversões Juvenis e a super bola de cera de abelha jataí que era a maior de toda a turma só deram pra seis sessões. Agora: me pergunta se valeu a pena? Pergunta? Ô, se valeu! E eu até desculpo a brincadeira do Mirtolão na última sessão do filme. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 23&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Menino de seus 10 anos, pretinho e com cara engraçada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off:&lt;br /&gt;O Mirtolão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mirtolão corrige, falando, bravo, para a câmera. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mirtolão: &lt;br /&gt;Milton Pereira de Santana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda a cara do Mirtolão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off: &lt;br /&gt;O MIR-TO-LÃO era o meu melhor amigo. Baiano, mais velho que eu uns dois anos, era mais forte que o resto da turma....&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cara do Mirtolão cheia de esparadrapos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off:&lt;br /&gt;... e o cara que podia até apanhar mas não deixava nenhum marmanjão relar na gente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 24&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Balcão de um buteco do velho Oeste norte-americano. O “mocinho” bebe, junto ao balcão, de costas para os demais. Pistoleiro saca de sua arma.&lt;br /&gt;Voz off:&lt;br /&gt;Mas tinha uma coisa que eu não gostava no Mirtolão, que era a mania deles de, às vezes, fazer bagunça durante a sessão de cinema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fecha na cara do Mirtolão, gritando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mirtolão:&lt;br /&gt;Aí, mocinho!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mocinho” saca a arma e alveja o fora-da-lei. Platéia de moleques cai na risada, olhando pro Mirtolão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off: Acho que era o jeito dele de se fazer importante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 25&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Menino jogando peão: sua maria-comprida arranca todos os peões batatinhas casados no círculo de giz. Foto do menino exibindo sua bola de cera de jataí (do tamanho de uma bola de futebol nº 3). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off:&lt;br /&gt;Já o meu jeito era juntar peão batatinha e aumentar cada vez mais a minha bola de cera de jataí. Só que, no final, tive que vender tudo para ver Joana d’Arc quantas vezes fosse possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 26&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Garoto olha para seu bolão de gude como se fosse uma pedra preciosa. Gota de lágrima explode no bolão. Outro garoto vende pirulito na rua. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off:&lt;br /&gt;O fato é que cada um vendeu o que tinha e o que não tinha para ver a Joana D’Arc, quer dizer a Jean Seberg, quer dizer, a Joa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 26&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Turminha entra no cinema andando de costas pela porta de saída, enquanto outros, de fato, saem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off: &lt;br /&gt;Mas a nossa maior saída, mesmo foi entrar de ré... pela saída. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 27&lt;br /&gt;Joana sobe as escadas do patíbulo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voz off:&lt;br /&gt;E foi justamente na última sessão de Joana d’Arc, com o Cine Central lotado, na cena mais importante, que o Mirtolão soltou uma das suas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Joana chega ao último degrau do patíbulo. Mirtolão grita:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mirtolão:&lt;br /&gt;Joanaaa! Ô, Joana!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JoanaD’Arc volta-se para trás. Mirtolão grita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mirtolão:&lt;br /&gt;Não é nada, não!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma lágrima rola no rosto de Jean Seberg, que se encaminha para o lugar onde será queimada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 27 (18.1)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rosto do paramédico, que fala, rindo. Depois, sério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paramédico:&lt;br /&gt;Boa piada, boa piada! Mas agora eu preciso te dizer uma coisa, amigo: nós temos um regulamento e é preciso cumpri-lo. Seus quinze minutos de fama já estão no fim e agora você vai ter que ver o filme de sua vida sozinho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 28 ( 7.2)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mão cerra os olhos apavorados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paramédico (off):&lt;br /&gt;Se é que essa história de filme na hora da morte realmente existe...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escuro. Letreiros escritos com esferográfica em papel manteiga projetados numa parede dão os créditos. Ao final, mão gravada na pedra (Cena 9) dá tiauzinho. Em um dos cantos da tela, a contagem regressiva dos segundos finais. &lt;br /&gt;Música final: “Eu não matei Joana d’Arc”, com Camisa de Vênus ou nova versão. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6674270-108026095807099771?l=curtasvirtuais.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6674270/posts/default/108026095807099771'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6674270/posts/default/108026095807099771'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://curtasvirtuais.blogspot.com/2004_03_01_archive.html#108026095807099771' title=''/><author><name>losorÃ¡culos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00995448600204111857</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry></feed>
